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Ansiedade na aula – 2a parte

Por que alguns “travam” na frente do professor?

Convidei a psicóloga Luciana Porto para dar sua contribuição. Afinal, ansiedade, medos e afins são temas que merecem a consultoria de uma especialista nas “instâncias da personalidade”, como diria Freud. Luciana gentilmente concedeu seu ponto de vista, que está no artigo anterior.

 

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Sou professor há mais de duas décadas e já presenciei casos de nervosismo, timidez, mãos suadas e rubor, algo comum nos mais retraídos, principalmente durante os primeiros contatos.

À medida que o aluno adquire “confiança“, tudo tende a ficar mais leve.

Quando falo em confiança, refiro-me à confiança tanto no professor como em si mesmo. São, portanto, duas confianças.

A tal da empatia, é importante? Sim, mas sem exageros. Isto conta mais quando você vai procurar por um psicólogo, para o qual revelará seus segredos, quando chega um novo colega na empresa ou quando conhece um parente distante. E conta menos quando escolhe seu professor, seu médico ou o seu banco. Tente separar as coisas e evite nutrir expectativas inúteis.

Alguns mestres são mais rígidos do que outros e até mais sisudos, o que não os desqualifica. O aluno deve considerar a aula que é dada e aprender a separar o professor do restante. Se a relação professor/aluno vai virar amizade (eu mesmo fiz grandes amigos entre tantos alunos) e se o papo será descontraído depois da aula, tudo isto é um “desdobramento” que nunca deve interferir na responsabilidade do aluno e no respeito devido à figura do professor. Isto é algo muito mais visível na cultura Européia e Asiática. Por aqui, parece que há um receio enorme de deixar o aluno melindrado. E aí professores preferem “fazer vista grossa” quando seus pupilos deixam a desejar (e estendo este parecer para todas as áreas da educação no Brasil).

O bom professor tem a autoridade para cobrar desempenho. E o bom aluno tem o dever de praticar o que lhe foi demandado (já o aluno excelente surpreende seu professor). Simples assim.

Aos adolescentes mimados de hoje, tão carentes de aceitação e aprovação a todo custo – e me dirijo desde aos adolescentes precoces, com seus oito anos, até aos tardios, que passam dos quarenta sem sair da adolescência – gostaria de dizer que uma bronca também pode ser um sinal de amor. Um dia você entenderá que, se bronca dói, tem algo que dói muito mais: a indiferença. (Aliás, é por isso que muita gente “apronta” e inconscientemente anseia pela bronca, pois só desta forma sente que é notado)

Acontece que nem todos estão buscando a excelência. Então tudo fluirá conforme seus objetivos foram definidos e também apresentados. Pois a “cobrança” em cima de um aluno que chega pedindo para ser transformado num “virtuose” é bem diferente da que uso com um aluno que só quer tocar por hobby, ocupar a mente, relaxar e fugir do Stress. Mas, guardada as proporções, sempre haverá cobrança. E isto é bom.

Claro, há os “descontos”. Tive aluno que acordava as cinco e meia da manhã para treinar um pouquinho antes de sair de casa, outros trabalham e fazem faculdade, outros vivem viajando. E por aí vai.

Existe uma diferença entre quem realmente tem o tempo escasso e aquele que é cheio de “ladrões de tempo“. Este precisa urgentemente organizar os seus horários e prioridades (para tudo, não só para a música, vale ressaltar).

Portanto, definindo e acertando bem estes “papéis” podemos começar a entender o que nos deixa ansiosos. Sem este entendimento, muita gente fica perdida e não sabe nem responder o que afinal a deixou num estado de ansiedade. Perceba-se! Você tem medo de quê?

“Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal. E isto nada tem a ver com a coragem.” – Jean-Paul Sartre

 

Entre tantos medos, o que me diz do medo de ser avaliado?

Não há como fugir, você será ocasionalmente testado vida afora. O fato é que o medo de ser testado acomete muita gente. E pode ter certeza de que o bom professor te avalia o tempo todo. Ele avalia a sua postura, suas duas mãos, se está ouvindo atentamente uma explicação, o som que tira do instrumento, o seu ânimo tocando e etc. (até as caretas que faz sem perceber quando algo está difícil!) Tudo, tudo mesmo, pode e deve ser avaliado (para o desespero de quem tem verdadeiro pânico por sê-lo).

 

Ludwig van Beethoven

Um gênio. Mas a que preço?

Beethoven foi um menino que tinha um medo real. Seu pai forçava-o a praticar várias horas por dia. Quando chegava embriagado de madrugada, o arrastava da cama para o piano, mandava que tocasse determinado estudo e, quando o pequeno Ludwig errava, dava-lhe um forte cascudo na cabeça. E qual criança sonolenta não erraria? Imagine a pressão sobre esta criança que, com onze anos teve que largar a escola e logo passou a sustentar a casa, pai alcoólatra e suas irmãs.

 

 

Alguns medos não são racionais e uma boa dose de lucidez não faria mal.

O bom professor cria o sentido de lucidez para o seu aluno “quando mostra que se importa”, ou seja, mostra que o aluno é de fato importante para ele, ao invés de vê-lo como mais um número, meramente. Ele passa a cuidar do desenvolvimento deste aluno. E o aluno se permitirá tal cuidado.

Quem não está lúcido fica refém de sua raiva, de sua frustração e de seus medos. Não deveria abafar estes sentimentos. Sabe o que deveria fazer com sua raiva, frustrações e medos? Jogá-los na música! Isso mesmo, sublimando e canalizando sensações para dentro da sua música, fazendo dela uma providencial válvula de escape, fazendo dela uma coadjuvante terapêutica.

Um outro medo eu chamaria de “medo do holofote”. Tem gente que fica extremamente desconfortável sendo foco de atenção. E isto não atrapalha só nas aulas. Certamente, antes de um futuro show, subir ao palco será angustiante (É o pânico semelhante ao do estudante que precisa ler sua redação em voz alta para a classe ou daquele palestrante iniciante que deve falar para uma platéia lotada).

A diferença é que, na frente de seu professor, você pode errar. Se tiver que cometer um erro ou mostrar alguma deficiência, que seja na frente do professor, que é, por extensão, seu treinador e o mais apto para corrigi-lo.

As vezes um exercício é muito desafiador, carece de mais coordenação. Se fosse uma fruta, demandaria mais tempo para amadurecer. Ou seja, aceite o fato: você vai errar! E ter medo disto é normal!

Aceite seu medo! Estar consciente dele ajuda muito. Diga esta afirmação libertadora: “Sim, tenho medo de algumas ou de todas estas coisas. E sempre tive! E tenho medo de muitas outras coisas além destas, que as pessoas nem imaginam!”

Vou te contar um valioso segredo: Nós podemos suportar a frustração de algumas coisas e… viver. Viver! Sim, a vida não termina com a frustração. (Voltando ao velho Freud, isto tem a ver com um Superego bem desenvolvido.)

Quer uns exemplos? Você caiu da bicicleta ao tentar sem as rodinhas, queria continuar brincando mas a mãe “chata” mandava ir pro banho, tentou fazer um acorde com pestana pela primeira vez e saiu aquele som horroroso, tentou achar a tonalidade de uma música antes de desenvolver sua percepção e ficou vagando pelo braço do instrumento feito barata tonta. Quanta frustração, né? Faz parte da vida, oras! O sábio aprende até com os próprios erros. O bom professor não irá te humilhar quando você falhar, não vai rir da sua cara, não se preocupe com isto.

O bom professor irá te instigar, vai te inspirar, vai te motivar e te dar “A” estratégia. Vai te apoiar sempre, mas também vai “puxar sua orelha”. Que bom! (Eu também tomava meus puxões. Hoje sou super grato por eles.)

Não há problema em ter medo. O ser humano normal tem medos. Só não se deixe paralisar pelo medo. O medo que paralisa dá sinais evidentes, preste atenção em você agora.

Geralmente, perguntas internas como estas, são as que te deixam engessado:

• Conseguirei ultrapassar tal limite?
• Vão dar atenção para algo feito por mim?
• Vão gostar da minha música?
• Será que consigo ser melhor do que fulano?
• Será que consigo ser o melhor aluno de todos?

• Será que dá pra superar meu professor?

O que dá pra observar em perguntas assim são fatores como vaidade, inveja, baixa auto-estima e o pior, uma super valorização quanto ao que pensam de você. (Que tanta força é esta que se dá ao outro, não é mesmo?)

Conforme passa o tempo vem a evolução, que é percebida quando um padrão como “Não sei se consigo fazer isto” muda para “Sei que eu consigo, é só questão de empenho e paciência”. Ou quando percebe que tem um ritmo próprio de assimilação e que está tudo em ordem, que você vai chegar lá, dando um passo por vez. Ou quando você percebe que gastar energia tentando ser melhor do que alguém é besteira.

Quer alguém para superar? Supere a si mesmo! Siga seu instinto e seja original, sua identidade musical é só sua, por isto toque para você em primeiro lugar, ache o seu som e ignore os palpiteiros, para não perder a sua essência.

Isto basta e te faz avançar de uma maneira muito mais producente, coerente e honrada. Os frutos colhidos assim serão infinitamente melhores.

A ansiedade descontrolada é bem danosa e por isso precisamos criar uma “estrutura psicológica protetora

Como? Apenas faça o teu dever! Mire no seu alvo, cuide da porção que te cabe, seja qual for. Se a tua escolha foi tocar, faça a tua música.

E se optou por entender o que vai tocar, tornando-se um aluno de música, meus parabéns! Nada como aprofundar-se e descortinar o que antes era tão misterioso. Nada como tornar o que era puramente intuitivo (como no caso de autodidatas) em algo mais claro, com todos os porquês respondidos.

Como eu sei destas coisas? Vivência! Passei por tudo isto, fui hiper tímido e um medroso também. Mas fui aprendendo a lidar com isto. Porque algo sempre me diz que, no fundo, está tudo bem. Porque a ansiedade enfraquece, aliás como tudo, se eu não a alimento.

E assim, mantendo uma distância segura entre mim, enquanto toco, e a minha ansiedade natural acerca da reação alheia ao meu ato de tocar, eu sigo em frente.

Pois então levante-se! E siga em frente!

 

Sherlock

 

 

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