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Entrevista sobre Bossa Nova

Na ocasião do Show onde toquei com Stanley Jordan, concedi uma entrevista para uma matéria especial sobre Bossa Nova. Compartilho com vocês, sem edições, o texto completo. 

 

A Bossa Nova faz 50 anos. O que você pode dizer como musico profissional sobre este estilo?

Na minha modesta opinião, a parte mais relevante da Bossa é a harmonia. Explico. Particularmente, salvo algumas exceções, como “Wave” e “Chega de Saudade” (exemplos de melodias bem elaboradas), geralmente acho as melodias primárias, algumas até infantis.

Tente apenas solfejar a melodia de “Garota de Ipanema”, ou de “Águas de Março”, ou de “Samba de Verão”. São melodias bem simples. E veja bem, não vejo isto como defeito! O simples também pode ser genial.

Aliás, é mister que estas melodias sejam assim, pois o jeito de cantar Bossa Nova é mais uniforme, sem floreios e mudanças de dinâmica. É coisa sutil.

A parte rítmica também é relativamente simples. E tem os baixos tocando eternas “tônica e quinta”, numa levadinha sincopada, calma e constante.

As letras, belíssimas (principalmente as do inspiradíssimo Vinicius de Moraes), são um caso à parte.

Mas ao olhar para os acordes temos a sensação de que não é um estilo para os autodidatas ou iniciantes do violão ou do piano. Aí é que a coisa pega!

Dá pra presumir que aquele grupo de amigos que se reunia nos anos 50 para tocar noite adentro certamente tinha uma bagagem cultural que ajudou ao novo estilo a já nascer lapidado. Era um estilo que nascia de bons músicos, bem estudados, elitizados. (Tom tinha formação erudita, Baden já era um virtuose, assim como Johnny Alf, só pra citar alguns).

Imagino (pura suposição) João Gilberto fazendo uma experiência de tocar um sambinha bem “ralentado”, bem intimista, descendo o andamento daqueles compassos binários e percebendo que havia ali muito mais possibilidades de mostrar o colorido dos acordes dissonantes, naquela batidinha tão peculiar do violão.

Como músico, gosto de tocar e improvisar sobre temas de Bossa Nova de vez em quando, sempre em versões instrumentais. Confesso que não paro pra ficar ouvindo aqueles CDs antigos com as gravações originais e nem me agrada essas versões de voz e violão, comuns em lugares com música ao vivo. Mas paro tudo pra ouvir feras como o Pat Metheny ou o Lee Ritenour e sua turma improvisando neste estilo. Claro que isto é o meu gosto pessoal, só estou citando o que para mim é mais gostoso, estou falando do meu relacionamento com a Bossa nova.

Como professor, quero exemplificar o porquê da parte harmônica ser o que mais me chama a atenção. Se você soubesse apenas três acordes simples, daria pra te ensinar dezenas de Blues, sucessos de Rock’n Roll, do Country, da Jovem Guarda, da música regional e popular. Já uma Bossa seria impossível! Com este exemplo reitero que o que é forte “para mim” neste estilo é mesmo a harmonia.

 

 

Em sua experiência com o internacionalmente famoso Stanley Jordan, o que ele deixou ou lhe disse a respeito da música brasileira?

Em primeiro lugar quero declarar que Stanley Jordan é uma pessoa adorável e de uma generosidade imensa. Só o fato de compartilhar sua musicalidade ímpar com o mundo já é prova disto.

Uma coisa comovente que ele faz é sempre pedir para ir até um hospital do país visitado e tocar ali, sem cachê nem mídia, para quem está internado. Muitas vezes tais pessoas nunca nem ouviram falar dele e ele não se importa com isto. É lindo.

Ele adora música brasileira e adora vir ao Brasil e ter a chance de tocar com brasileiros.

Tanto que no dia do show em que tive a honra de participar, ele fez questão de só tocar músicas daqui. É um improvisador nato!

É impressionante como basta mostrar a música uma vez que ele já a absorve completamente.

Foi assim com o Roberto Menescal, que apareceu de ultima hora e quis fazer conosco “Só danço samba”, um de seus conhecidos sucessos.

Lá no camarim, com a guitarra desligada mesmo, o Menescal cantou-a uma vez pro Stanley e pronto! Isso foi o ensaio! E quando chegou o momento desta música tudo correu perfeitamente e ele fez um lindo improviso.

E durante o meu improviso, pouca gente deve ter percebido isto, mas o Stanley ficou olhando o que eu fazia e não se perdia em momento algum. Suas mão seguiam em frente enquanto assistia ao meu improviso, com a cabeça virada pra trás. É impressionante.

Outra amostra de seu apreço pela Bossa Nova foi na vídeo-aula que gravou naquela semana em que eu o acompanhava. Grande parte do tempo da aula foi tomado pela análise do que fez com “Garota de Ipanema” no show da noite anterior. É um DVD indispensável para quem gostaria de aventurar-se a improvisar sobre este hino da Bossa Nova.

Stanley é um músico completo, excelente improvisador, dono de ouvido absoluto e técnica impressionante. Seu jeito de tocar guitarra de forma pianística esconde um segredinho interessante…

Ele não afina da maneira convencional (E B G D A E). As duas primeiras cordas são afinadas meio tom acima. Então sua corda Mi solta soa na verdade um Fá, e a corda Si soa um Dó.

Não bastasse tudo isto, atualmente ele senta-se ao piano com a guitarra e fica trocando as mãos entre os dois instrumentos. Ou seja, toca os dois ao mesmo tempo.

 
O Jazz, podemos dizer, é o pai da Bossa Nova. Na sua visão isso torna a Bossa Nova mais popular fora do país do que entre nós brasileiros?

Para mim há uma grande confusão. Não vejo o Jazz como pai da Bossa Nova. Atribuo a real paternidade ao Samba.

O Jazz é o estilo dos improvisadores. Graças à harmonia mais incrementada, o jazzista aprende como fazer um largo uso de escalas e fraseados que não soariam tão bem em outros estilos.

Acontece que a Bossa Nova também usa a harmonia de forma muito atraente para quem improvisa. Suas músicas são cheias de modulações, de dissonantes e de passagens interessantes. E isto, alem de desafiador, é um terreno fértil para a criatividade do improvisador.

De forma que o jazzista vê na Bossa simplesmente uma oportunidade de improvisar sobre uma “levada” diferente.

Mas, se apenas porque tem uma harmonia complicada alguém vê na Bossa Nova uma filha do Jazz, que dizer então do Ivan Lins, do Chico Buarque, do Djavan ou do João Bosco, todos donos de sacadas harmônicas geniais?

A Bossa é toda requintada porque não veio da periferia e sim de uma elite que queria cantar as coisas boas da vida, num momento efervescente no Brasil e num Rio de Janeiro que ainda era a “Cidade Maravilhosa”.

Não era para as massas, pro trabalhador nem pro sertanejo. Isso sem falar que não é música pra dançar ou festejar. É pra ouvir sentado, de preferência com um copo de Whisky na mão. Este é o simples motivo de nunca ter “estourado” no Brasil inteiro.

Também não acho que seja mais popular lá fora. Isso depende. Se você contentar-se com o fato de usarem seu estilo como musiqueta de elevador ou de sala de espera, achando que isso é valorizar sua música, aí tudo bem.

Mas aqui no Brasil é claro que todos sabem o que é Bossa Nova. Apenas salientando o que eu disse antes, um João Gilberto ou um Tom Jobim nunca terão a popularidade de um Chitãozinho e Xororó ou de um Roberto Carlos.

Mesmo assim a Bossa Nova por aqui é tema de filmes, foi recentemente tema de abertura de novela e gera montanhas de coletâneas e regravações. E além disso, não é raro entrar num barzinho em que esteja alguém num banquinho com seu violão, cantando “Olha que coisa mais linda…”.

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